quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sobre imagem, mito e literatura moderna.

Esse homem tem história com o cavalo.
Nem sempre foi assim.
A morte do animal foi conseqüência do seu feito aqui no meu mundo tangível. O homem já vai morrer também, não precisa preocupação; o vazio é só um meio de transporte.
Tudo por castigo.
Eu sei como os elementos foram parar no espaço do nada.
Reconto:
 Ele havia roubado o cavalo de caçada de um rei da alegria. (explosão)
Nunca mais repousou: roubou o cavalo de caçada do rei do sabath.
Se adormecia um instante, o eco de um relicho o despertava. E, dessa vez, foi inútil não ir.
No escuro da noite o resfolegar o arrepia. Fingia que dormia mas no silêncio o ginete respirava assim. Uh. Não dizia nada, respirava.  Espera. Respira.
Todos os dias era a mesma coisa.
Até que de madrugada, aos últimos tambores levíssimos, o homem sem saber se encontrou como junto a um regato, sem saber jamais o que fez, ao lado da enorme e cansada cabeça do cavalo. O cavalo sorria com seus enormes dentes amarelos.
Mas do quê estavam cansados? O que fizeram estes – que usufruíam do inferno da alegria?
Eu conto.
De noite, o cavalo o chamou. Ele foi. Foi porque o cavalo conduziu seu pensamento. Os cães latindo, o olho resplandecendo. O cavalo o chamou para o inferno, o homem foi. Ninguém soube, ninguém viu. Apresentou-se no escuro, mudo e em fulgor. Corriam atrás destes cinqüenta e três flautas. À frente, uma clarineta os alumiava.
De madrugada estiveram, exaustos, junto ao regato. Boca do homem, pata do cavalo: marcas do sangue.
O que imolaram?
Estiveram na Igreja, com os primeiros sinos escorrendo pelo regato e o resto das flautas ainda escorrendo dos cabelos.
A noite era a vida. A noite feliz era suas vidas tristes. (explosão)
Eu me assustei quando o carroceiro apareceu na curva, atônito. Vozes gritavam ao pé do seu ouvido. Mas tudo era silêncio. Para o cavalo e para quem estivesse próximo a ele.
Vozes gritavam. A culpa. O proibido. O prazer. O inferno.
(E profetizaram o neutro no qual hoje se encontram.)
O homem me pediu:
“- Rouba, rouba de mim o ginete porque de roubo em roubo até a madrugada eu já roubei.”
Pediu-me para fazer depressa.
E era tudo depressa. Que falava, que olhava, que amava o cavalo.
Depressa se culpou. Depressa, o proibido. Depressa prazer!
Não suportando a violência das vozes, explodiu:
“ – Roubei o ginete e tive que matar o Rei; ao assassiná-lo roubei a morte do Rei. E a alegria do assassinato me consome em prazer”.
Foi assim que os conheci.
Depois da confissão, não sei mais o que houve. Dizem que o homem e o cavalo alcançaram o neutro.
Mas esse vazio é só um meio de transporte.


Baseado em: Conto ( não conto) - Sérgio Sant'anna e A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector)

Sobre pré-requisitos

Tem que ser homem. Homem. Ai.
Tem que ter costas, braços e abraços.
Tem que ter mãos e dedos.
Tem que ter perfume de.
Tem que ter voz.
Tem que musicar.
Tem que estar da cor verde. Verde capital.
Tem que ser dois: meu e para mim.
Ai. Deus.
Tem que estar.
(Estar presente, ser presente, mandar presente.)
Tem que olhar, sorrir, ouvir.
Largos olhos. Largos sorrisos. Largos ouvidos.
Todos meus.
Tem que... (explosão). Assim.
Por dias.












(não consigo encontrar um fim pra isso)

Sobre imagem e mito - Dionisa Urbana

Frequentemente, Caetano, eu e Outro.
Mesmo horário. Mesmo restaurante. Mesmo elevador. Mesma empresa.
Contraditoriamente, Caetano, eu e Outro.
Mais silêncio, mais religião, mais sentidos.
Sentidos aguçados. Olhares fixos.
Perfume. Suor. Crucifixos.
Flechadas de ouro.
Um animal, dois animais. Besta-fera, borboleta.
Espelhos, Voyeur.
Doces e frutas – além de vinho e pão.
Corpos dançantes no corredor.
Corpos ‘la petit mort’ no confessionário.
Corpos sob o signo da Rosa.
Meus.
O cheiro no quarto. Nas mãos. Na consciência.
A ausência dessa última me orgulha.
Um culto em ações de graça, por favor.










Sobre ela.

Uma flor: não bela, não perfumada, não primaveril.

Sobre o que senti de alguém.

À Fulana



Não grite.
Não (me) toque.
Não sorria.
Não use isso.
Não opine.
Não esteja.
Não venha.
Não movimente o cabelo.
Nem a mão.
Não pense.
Não desfaça.
Não invente.
Não respire.
Não isso.
Não aquilo
Não, Léthe*. Não, não...
Faça tudo para não existir.













*Léthe: em grego, esquecimento; um dos rios do Hades.

Sobre gostar de cantos.

Gosto dos cantos. Canto dos pássaros. Canto do Chico. Canto da Elis. Meu canto. Meu recanto. Eu reconto. Conto de Clarice. Conto de Andrades. Conto de vaidade. Canto do castigo. No canto choro. Com canto adoro. Imploro no canto.

Sobre uma viagem que fui obrigada a ir - o que que a Bahia tem?

A Bahia tem estradas sinuosa e tem muitos trechos em obras.
Tem caminhões com pesadas cargas a 60 km/h.
Tem pontes sobre rios que, em sua maioria, deixaram de existir.
Na Bahia tem a presença do MST - amigos do Lula, o filho da puta do Brasil.
Tem protótipos de casas: umas de Taipo (Sapê), outras de lona e têm mais outras de tijolo - só no tijolo.
Tem lugarejos como Estrucamento de Valença e Distrito dos Humildes.
Tem um baiano mequetrefe (ab)usando (d)o telefone público -  em Itabela.
Aqui, Bahia, tem uma menina de - aproximadamente - 15 anos se oferecendo na estrada às 6 da manhã.
Mais à frente, em um quebra mola num 'perímetro urbano' (urbano, onde?), um grupo de jovens baianos vendendo bananas a preço de amora -
Tem uma iguaria chama a c a r a j é e a não-diferenciação entre "pão de queijo" e "pão com queijo".  
Tem cabrito/bode/carneiro/bezerro/gato - tudo na brasa -, café melado, feijão macaça e cachaça de bolso (como se fosse bala).
Tem três casas a cada 500 km, muito espaço vazio e gados estatuetais pastando.
 Um pouco de queimada ali, por aqui tem eucalipto, acolá tem aipim e do outro lado, tem bananeiras.
Ia esquecendo: tem cacau também.

Não tem as baianas com saias brancas rodadas, nem tem algo histórico-cultural. Nem internet, nem banco, nem gnv. Esses são pertences de Salvador.

Mas me diz... o quê que a Bahia tem mesmo?

Sobre uma viagem que fui obrigada a ir - a saudade da cidade.

Dois policiais militares na BR 101 Norte - altura de Carabeus - pedindo carona (como é de costume das pequenas civilizações). Provavelmente estavam tentando chegar àquilo que se chama de 'trabalho'.

Daí eu digo: nada de bucolismo, arcadismo e vida sustentável.
Viva o futurismo, a revolução industrial e o capeta capital.
Eu gosto é do Rio, da violência, do monopólio supremo e do gás carbônico; diga-se de passagem, perfeitamente harmonizados com a maresia da zona sul, parte da Mata Atlântica e a maconha.  

Tudo isso com a bênção do Cristo.

Viva o "patriotismo estadual" exacerbado!