Esse homem tem história com o cavalo.
Nem sempre foi assim.
A morte do animal foi conseqüência do seu feito aqui no meu mundo tangível. O homem já vai morrer também, não precisa preocupação; o vazio é só um meio de transporte.
Tudo por castigo.
Eu sei como os elementos foram parar no espaço do nada.
Reconto:
Ele havia roubado o cavalo de caçada de um rei da alegria. (explosão)
Nunca mais repousou: roubou o cavalo de caçada do rei do sabath.
Se adormecia um instante, o eco de um relicho o despertava. E, dessa vez, foi inútil não ir.
No escuro da noite o resfolegar o arrepia. Fingia que dormia mas no silêncio o ginete respirava assim. Uh. Não dizia nada, respirava. Espera. Respira.
Todos os dias era a mesma coisa.
Até que de madrugada, aos últimos tambores levíssimos, o homem sem saber se encontrou como junto a um regato, sem saber jamais o que fez, ao lado da enorme e cansada cabeça do cavalo. O cavalo sorria com seus enormes dentes amarelos.
Mas do quê estavam cansados? O que fizeram estes – que usufruíam do inferno da alegria?
Eu conto.
De noite, o cavalo o chamou. Ele foi. Foi porque o cavalo conduziu seu pensamento. Os cães latindo, o olho resplandecendo. O cavalo o chamou para o inferno, o homem foi. Ninguém soube, ninguém viu. Apresentou-se no escuro, mudo e em fulgor. Corriam atrás destes cinqüenta e três flautas. À frente, uma clarineta os alumiava.
De madrugada estiveram, exaustos, junto ao regato. Boca do homem, pata do cavalo: marcas do sangue.
O que imolaram?
Estiveram na Igreja, com os primeiros sinos escorrendo pelo regato e o resto das flautas ainda escorrendo dos cabelos.
A noite era a vida. A noite feliz era suas vidas tristes. (explosão)
Eu me assustei quando o carroceiro apareceu na curva, atônito. Vozes gritavam ao pé do seu ouvido. Mas tudo era silêncio. Para o cavalo e para quem estivesse próximo a ele.
Vozes gritavam. A culpa. O proibido. O prazer. O inferno.
(E profetizaram o neutro no qual hoje se encontram.)
O homem me pediu:
“- Rouba, rouba de mim o ginete porque de roubo em roubo até a madrugada eu já roubei.”
Pediu-me para fazer depressa.
E era tudo depressa. Que falava, que olhava, que amava o cavalo.
Depressa se culpou. Depressa, o proibido. Depressa prazer!
Não suportando a violência das vozes, explodiu:
“ – Roubei o ginete e tive que matar o Rei; ao assassiná-lo roubei a morte do Rei. E a alegria do assassinato me consome em prazer”.
Foi assim que os conheci.
Depois da confissão, não sei mais o que houve. Dizem que o homem e o cavalo alcançaram o neutro.
Mas esse vazio é só um meio de transporte.
Baseado em: Conto ( não conto) - Sérgio Sant'anna e A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector)